A Sociedade do Cansaço e a Produção do Sujeito-Desempenho. Por que estamos sempre exaustos
e por que nem percebemos que isso é político
Nos últimos anos, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han se tornou uma das vozes mais contundentes para entender o mal-estar contemporâneo. Não porque descreve algo totalmente novo, mas porque consegue nomear com precisão um tipo de sofrimento coletivo que atravessa nossa rotina: o esgotamento silencioso de viver numa sociedade que nos pede desempenho o tempo todo.
Em A Sociedade do Cansaço, Han argumenta que deixamos para trás os tempos disciplinares — aquele modelo que Foucault descreve, feito de vigilância, regras e obediência — para entrar em uma forma mais sutil (e mais eficiente) de dominação: a autoexploração. Não é mais um “poder que castiga”, mas um poder que seduz, que promete liberdade, autonomia, produtividade, sucesso — e que usa exatamente essas promessas para nos esgotar.
Do “dever” ao “poder”: quando o cansaço vira identidade
Se antes o sujeito era moldado pela lógica do “você deve”, hoje somos produzidos pela lógica do “você pode”.
E é aí que mora o problema.
O sujeito neoliberal — que Han chama de sujeito de desempenho — vive como se estivesse permanentemente em dívida com as possibilidades infinitas.
Se pode tudo, então também deveria tudo.
- Poder ser melhor.
- Poder performar mais.
- Poder empreender.
- Poder se reinventar.
- Poder crescer.
- Poder produzir conteúdo.
- Poder cuidar da saúde, da carreira, do corpo, da mente, das relações, das finanças — tudo ao mesmo tempo.
A promessa de liberdade se transforma em pressão infinita.
O “poder” vira um imperativo mascarado.
É por isso que o cansaço de hoje não é barulhento.
Não é o cansaço das fábricas.
É o cansaço interno, íntimo, psicológico — quase sempre vivido em silêncio.
Autoexploração: quando o explorador e o explorado são a mesma pessoa
Han diz algo crucial:
“A sociedade de hoje não é mais uma sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho.”
Isso significa que já não precisamos de um chefe nos vigiando. Nós mesmos fazemos esse papel.
Nos comparamos o tempo todo com metas inalcançáveis, com versões otimizadas de nós mesmos, com vidas perfeitas nas redes sociais.
Trabalhamos demais, estudamos demais, consumimos cursos, metas, hábitos, rituais de produtividade.
E tudo isso sem que ninguém precise mandar.
Porque a ordem já está dentro de nós.
Nos tornamos sujeitos-empresa.
Sujeitos-projeto.
Sujeitos-marca.
Sujeitos-currículo.
E, como toda empresa, buscamos maximizar desempenho — mesmo às custas da própria exaustão.
O esgotamento como sintoma social — não como fracasso pessoal
Um dos pontos mais potentes de Han é que o burnout não é uma falha individual, mas um fenômeno coletivo produzido por um sistema que transforma a vida em um campo permanente de competição.
A lógica meritocrática exige que cada pessoa seja seu próprio capital humano — sempre pronto para render mais.
Por isso, o esgotamento, a ansiedade e a depressão não são desvios:
são os sintomas normais desse modelo de subjetividade.
E essa é uma das críticas mais profundas de Han:
A sociedade do desempenho nos convence de que estamos livres, quando, na verdade, estamos apenas carregando o trabalho do próprio sistema para dentro da alma.
A positividade que adoece
Han chama essa lógica de positividade tóxica — uma atmosfera que exige entusiasmo, flexibilidade, iniciativa, empolgação, autoajuda e otimismo como formas de sobrevivência.
Não se trata da violência que proíbe, mas da violência que permite demais.
Permite a ponto de colapsar.
O excesso — de estímulos, de informação, de trabalho, de expectativas — implode o sujeito por dentro.
Por isso, a violência da sociedade do cansaço não é visível.
Ela se infiltra nos ritmos da vida, nas rotinas, no tempo, nos aplicativos, na autoimagem, nas métricas — e na sensação permanente de insuficiência.
E o que fazer diante disso?
Han não oferece soluções prontas, mas pistas importantes:
- Recuperar o ócio verdadeiro, que não é descanso para produzir mais — mas tempo não instrumentalizado.
- Criar espaços de contemplação, silêncio e relação não performativa.
- Reaprender a dizer não, inclusive ao excesso de possibilidades.
- Reconectar-se com limites, em vez de tratá-los como fracasso.
Em outras palavras:
é preciso reaprender a ser sujeito — e não apenas projeto.
Conclusão
A sociedade do cansaço não é sobre pessoas fracas.
É sobre um sistema que fabrica sujeitos que “livremente” se esgotam.
Um sistema que transforma liberdade em obrigação, autonomia em demanda infinita, e potência em culpa.
O sujeito de desempenho é aquele que se cobra até adoecer — e ainda se culpa por não estar produzindo como deveria.
Compreender Han é reconhecer que esse cansaço não é só nosso:
é histórico, político, produzido e compartilhado.
E é só quando percebemos isso que abrimos espaço para outra forma de viver — menos performativa, menos competitiva, menos otimizada — e finalmente mais humana.