Nos debates contemporâneos sobre subjetividade — especialmente entre quem vive e pensa o mundo desde experiências LGBTI+ — dois conceitos se cruzam com força: tecnologias de si (Foucault) e performatividade (Butler).
Não são apenas categorias teóricas. São descrições de como a vida acontece no corpo, no cotidiano, na forma como aprendemos a ser alguém no mundo.
Tecnologias de si: modos de produzir a si mesmo
Para Foucault, tecnologias de si são práticas — discursivas, corporais, institucionais — que nos ensinam a administrar quem somos.
Elas moldam:
- como cuidamos de nós,
- como entendemos nosso desejo,
- como narramos nossa identidade,
- como disciplinamos (ou libertamos) nosso corpo.
Não são tecnologias neutras.
São produtos de épocas, normas e moralidades.
Para pessoas LGBTI+, isso fica especialmente evidente: aprendemos cedo quais partes de nós devem ser mostradas, escondidas, silenciadas, exageradas ou domesticadas. Aprendemos a performar segurança para sobreviver e, às vezes, a performar risco para existir.
Performatividade: quando a identidade depende do gesto
Butler desloca a ideia de identidade fixa e mostra que gênero não é algo que “temos”, mas algo que fazemos.
Repetimos — com variações — normas de gênero que circulam na cultura.
O gesto constrói o efeito.
E a repetição cria a ilusão de estabilidade.
Mas justamente porque depende de repetição, a norma pode falhar.
E é nessa falha que vidas queer emergem como crítica viva: cada corpo dissidente mostra que gênero não é destino, é produção.
O encontro entre os dois conceitos: produzir-se, mas também se desviar
Quando aproximamos tecnologias de si e performatividade, vemos que nossa identidade é uma disputa entre:
- as normas que tentam nos capturar,
- e as invenções que fazemos para continuar respirando.
A tecnologia molda o gesto, mas o gesto pode desobedecer a tecnologia.
E é aí que subjetividades queer se tornam potentes:
não apenas porque desafiam a norma, mas porque revelam o mecanismo da norma.
Nossas vidas mostram que não existe “natural”.
Existe produção.
Existe repetição.
E existe também criação.
O que isso significa para nós — quem vive e pensa a partir das margens
Significa reconhecer que nossa existência é política antes de ser teórica.
Que pensar filosofia desde experiências LGBTI+ não é exceção acadêmica, mas uma forma legítima de produzir saber.
E significa, principalmente, entender que:
se tecnologias de si moldam a vida, então podemos aprender a moldá-las de volta.
Se performatividade produz identidades, então podemos performar futuros.